Fazer o amor
e subir as montanhas
os olhos no compasso
e uma faca escondida
entre velhas cobertas -
os pés são sucintos
                 raiz por raiz
cuidado
em não ferir
ainda mais
nos
perigos
que insistimos em trilhar -
                            talvez por
que é maior que nós o
que em nós habita,
muito maior este um
metro e setenta
lavrado
pelas noites aos pés amigo
                            meu
do cálido seio
da montanha
esperando a torrente
amainar
                 você cruza o espelho
d'água
e eu te sonho lentamente
do outro lado,
o fio da tua pelagem rude,
tua maneira fina de agarrar
pequenos objetos,
desvendá-los em cores
e sorrir então os olhos amarelos
para algo que passa como um sopro entre nós dois -

Fazer o amor e
subir as montanhas
erguidas no fundo do sonho
nas gargantas
da pitonisa,
surgida flamejante
do coração do medo,
mais alta que as montanhas
erguidas no coração do medo.

vamos mudar os limites do corpo, mandar este relatório às favas,
performar milagres alcoólicos em praias desertas,
cantar o domingo em estranhas línguas eslavas -
é chegado o horizonte em ciclos sanguíneos:
vem, vamos cruzá-lo.

necessidades

É preciso viver onde floresça
É preciso guerrear com que se queira
ultrapassar todos os fins,
viver à beira, precipitar em
colher dons
de luz e sombra,
acolher os precipícios,
botá-los do avesso, alçá-los
como quem toca montanhas,
amar como pão que cresce
batido por mãos limpas
no fundo dum vaso
sanguíneo,
distribui-lo
entre todos, dar de
comer às estrelas,
dobrar como mil lábios
frente aos dentes afiados
que sussurram: sê

Cena no trem

Quando iam de mãos dadas
pelos vagões, os longos cabelos
nunca antes cortados, escutando
as canções preferidas, canções
que a vida inteira
colocariam para tocar
entre lençóis dispersos, sem bem
saber se estavam
atrasados ou adiantados
nesta escura peregrinação
de um evento
imemorial a outro, encharcados,
as mãos firmes dos jovens
tão jovens amantes, perdiam a parada
final infinitas vezes, iam e vinham pois
já não havia como soltar, não
tinham casa nem mais dinheiro mas tinham
as estações corriam
até eles, as nuvens corriam,
os tênis balançavam nos fios,
os subúrbios amarelos no tempo,
uma nave no céu que levanta, os
olhos - tantos! transbordando
sonhos descarrilhados

Um poema (Iniji) que não é como os outros - J.M.G. Le Clézio

        Interrogamo-nos acerca da poesia? Desejaríamos saber o que pretende ela, aquilo que pretende de nós. É que muitas vezes não nos diz nada. Palavras, fragmentos de frases, balanceadas, hesitantes, versáteis, palavras que não conseguimos reter.
        Estribilhos de canções, talvez? Mas então onde está a música? Talvez músicas silenciosas, tocadas no fundo da água, a cem braças de profundidade.
        Os outros poemas, todos os poemas célebres, organizados, compostos, exércitos em armas que marcham a passo certo. Não estamos lá quando passam. Viramos a cara, vamos procurar noutro lado. Em geral, quando passavam, esses grandes poemas, havia um extremo vazio, um intenso vazio (o medo, o cansaço), e era a ele que preferíamos.
        Ou ainda outros poemas, que falavam de coisas grandes, insultavam, blasfemavam. Faziam um grande barulho de trovão, e nós, pequenos homens fracos que não gostávamos de tempestades, metíamos a cabeça entre os ombros, à espera de que aquilo passasse. Os gritos e os insultos, não, isso não era para nós.
        Cada vez mais poemas, sempre, nos livros. Fileiras de linhas, frases cortadas, em suspenso, nas páginas brancas... Mas olhávamos esse branco das páginas e, de longe, as cristas dos maciços verticais, árduas colinas de que não queríamos aproximar-nos, estavam bem onde estavam, de longe, ao longe. Diziam coisas, esses poemas, e ao mesmo tempo não diziam nada. Palavras voltejantes, não iam a parte nenhuma, sem força, sem duração, sem memória, lidas vagamente, abandonadas depois. Criavam o seu próprio rumor, dispensando ouvidos, zumbir de abelhas invisíveis. Líamos aqui uma palavra, ali outra, e tínhamos dificuldades em ligá-las, pois eram palavras sem raízes, não viviam, pareciam conchas vazias; podia fazer-se com elas um colar.
        Agora, depois de Iniji, já nos não interrogamos. Há uma certeza. Viu-se qualquer coisa, seguiu-se essa coisa, como se a gente estivesse a fazê-la, como se tivesse encontrado ouvidos para escutar a música do fundo da água.
        Não é como os outros, este poema, não distrai, não se esquiva. Na verdade não está escrito, encontra-se ali na página por acidente, e deve estar também algures, gravado numa árvore, por exemplo, ou inscrito na terra seca, ou tatuado então na pele humana. Claro que não está apenas escrito. Passou pelo tremor da escrita, foi assim que apareceu primeiro. Mas não existe somente nesse tremor, não existe somente para os olhos. Existe algures, em volta, no ar, nas nuvens, na folhagem das árvores vistas à distância, no mar, na erva calcada de uma pista. E nas ruas de uma grande cidade, entre as paredes dos prédios, acompanhando o movimento dos automóveis, os cláxons, as luzes, a multidão.
        Deve lá estar há muito tempo pois, quando o lemos, reconhecêmo-lo imediatamente. Não o procurávamos, nem procurávamos sequer o nome de um autor. Íamos ao seu encontro sem saber, e ele vinha ao nosso encontro seguindo o seu curso de cometa que se aproxima, roça e desaparece.
        Há tanto malfadado saber que turba, perturba. Estas palavras, todas as palavras inquinadas e falsas, inflamando, obstruindo as mucosas, impedem que o ar chegue até nós. Tantas palavras: tantas paredes.
Mas existem outras palavras libertadoras, e não entendemos porquê. Não são as mesmas? Não são, elas também, linguagem dos homens? Chegam facilmente, sem as procurarmos, são leves, não pedem nada, não oprimem. Palavras aéreas, suspensas no céu branco em esquadrilhas imóveis. São elas que vemos agora, só elas. Como se pôde inventar uma linguagem assim? Gostaríamos de acreditar que se trata de miragem, de acaso, e sabemos contudo (precisamente por causa das palavras da linguagem pesada) que não é simples coincidência. A música fere a música, e as palavras de Iniji reencontram no fundo de nós a sua própria imagem, como sobrevoando um grande lago quieto.
        O poema veio de longe, assim, tranquilo, com os seus gestos, a sua vida, para nos reencontrar.
Insensato, móvel, penetra em nós e escruta-nos. Ou éramos nós que não tínhamos corpo, e temos agora o corpo de Iniji. Não sabíamos falar. Não possuíamos ideias, nem imagens, perdêramos o norte. Longe desse poema, a vida era surda, sussurrada, pois todas as palavras da linguagem normativa (a linguagem das teses e antíteses, a linguagem das análises, dos juízos e proclamações solenes) eram unicamente um lento nevoeiro roçando a face da matéria. Era possível que nos confundissem com seus torrões e calhaus. Não havia nenhuma ciência, nenhuma lembrança.
        Como é possível? Onde nos encontrávamos então, antes de Iniji?
        Claro, considerávamos importantes essas palavras de linguagem, essas palavras comuns. Excitadas como matilhas, boas para caçar, farejar, ladrar, matar. Mas há outra língua, que falávamos antes de nascer. Uma língua muito antiga, não servia para nada, não era a língua do comércio com os homens. Não era decerto uma língua de sedução, para subornar ou para dominar. Dela provinham as palavras, estas palavras: fluidos, vento, bilha, órfã, carris, dormir, coração, constelada, cisne, lasciate, vapor, contorno, opala, vem... Existiam ao mesmo tempo que a vida, não desligadas dela. Eram uma dança, uma natação, um voo, eram movimento.
        Tínhamo-las perdido de vista.
        Depois, hoje, reencontradas, são elas que me reencontraram, e me obrigam a lembrar.
Língua insensata que avança, magnificamente autónoma como um corpo de delfim, a correr sem esforço ao lado do meu corpo, ultrapassando-o, iludindo-o, rápido através da massa de água que não consegue sustê-lo.
        Nada dizer, nada mais dizer depois de Iniji. Mas não é isso que pretende esta língua. Porque nos tornaríamos mudos? A música entra pelos ouvidos e deve sair pela boca, ou então pelas ancas.
Iniji não existe. Cada vez que dela nos apercebemos, a língua estala e a palavra morre. Interrompida antes de entrar no mundo. Reflexos talvez, porquanto as suas palavras não são palavras. Se retemos um nome, felizes por saber aquilo que surgirá, ele rebenta. Não há nomes, só bolhas. Balbuceios de bébé, Iniji Ananiá Iniji, Djã dã dã, Irritilili.
        A língua que me não quer falar enlouquece, faz turbilhonar a agulha, acelera, liberta os seus enxames de faíscas. A fascinação hipnótica agarra-nos por dentro do corpo, bem gostaríamos de afastar os olhos e regressar às vozes que falam, em baixo, que nos chamam. Mas o medo de perder uma única destas palavras voadoras, de perder a dança, a natação, a vida! Porventura pela primeira vez fixamo-nos a alguma coisa.
        A língua de Iniji não é um logro. As linguagens pesadas tropeçam nas suas consoantes, nas sílabas, como um cego tropeça nos móveis de um quarto desconhecido. Já não pretendemos falar todas as línguas. As palavras encontram-se além, sempre além, e é preciso apanhá-las depressa. As vogais que soam, ressoam.
        Talvez seja necessário abandonar tudo. Abandonar tudo isso, os adornos medíocres, as máscaras, os anéis, os cintos coleccionados, tudo isso com que nos ataviaram. Desejaríamos acreditar que eram só palavras, as mais inconsistentes. Se quiséssemos, apagar-se-iam, as palavras que diziam que, que acreditavam que... Se julgavam, elas, não as julgaríamos nós, um dia? Mas as palavras não são apenas palavras. Têm longas raízes tenazes mergulhadas na carne, mergulhadas no sangue, e é doloroso arrancá-las. Palavras aprendidas, reconhecidas, hábitos, parasitas, eram elas que destilavam veneno.
        Mas Iniji não pede que se escolha. Não se trata de mudar de vida, mudar de rosto ou nome. Iniji só deseja que nos lembremos. A língua fora do tempo, fora do espaço, a língua que se fala eternamente e sabe esperar por nós: aparece quando já não se esperava, no céu branco, traça as suas pequenas vias negras que não conduzem a sítio nenhum. Não haverá partida. Durante um instante, fala-nos com sua vida, e falamos-lhe com os nossos olhos. Quando deixa de lá estar, já não está, é como se nada houvesse acontecido.
        Será forçoso então viver sem Iniji? Voltar a elas, lá em baixo, às palavras que surdamente resmoneiam, rosnam? Não se pode saber: estamos cercados pelo vento.


in: As Magias, poemas mudados para português por Herberto Helder.

Foucault para torpes

Charles menino sonhava
em ser um padre guerreiro.

Francisca menina sonhava
em ser bailarina, astronauta, lixeira e criminosa.

Passaram-se duzentos anos.
Terminaram entediados.

fôlego

1.

Além muito além daquela serra
Aquém muito aquém daquele sopro
certo que haja
um lugar que respire,
uma casa de terra,
porosa e feliz,
em que se possa

em que nossos
modos impraticáveis,
em que nosso
amor
em que o amado o mundo

corte
por que a aurora
vaza

2.

Partimos na claridade
prenhe de estações

um comboio vazio
pelas cidades lotadas

sorrisos azuis de tristíssimas crianças,
turbilhão de gaivotas sobre negras peregrinagens
a cuja dança irrepetível chamaram profecias,
aves magras, nossas penas ardem

o retorno sempre à frente, o retorno
foi ficando para trás

e no rosto em escândalo
e no rosto em fadiga
e no rosto em distância,
nem escândalo nem fadiga nem distância,
amor, a terra, a terra adorada,

carne em que
pousamos nossos sonhos,
em que afogamos nossa sede implacável  -
aqui, agora, inteira, um ponto - rosa que encharca, interminável.

enfant sauvage

Kaspar Hauser
no meio da praça
no meio do mundo
do único verso da vida
Tendo nas mãos um bilhete
que de tão compreensível desliza
por seus dedos que, menos que patas,
prelos de algo perdido de antemão,
cedo demais, cedo demais este crime
mas nunca é cedo demais nem tarde demais
é sempre o momento exato, Kaspar Hauser,
sempre o momento exato para a inocência
Mãe, o que é isto?
Se parece a Heinrich Heine mas tem olhos de helminto,
será um deus ou um demente?
Isto não pertence à história!
DESRITMIA
DESRITMIA
como manter os olhos abertos
quando as estrelas explodem na ausência?
A mãe tapa os olhos do menino -
Kaspar Hauser os atravessa de um tiro
ES PI   RI TU AL -
Kaspar Hauser imobiliza o mundo
Kaspar Hauser eu te ponho nos ombros
Kaspar Hauser a noite é nossa fonte
Kaspar Hauser te ensinarão palavras
para duvidarem de ti,
te ensinarão as lágrimas
para divertirem-se consigo
Serás assassinados pelos servidores,
de mãos limpas
de coração feroz
os justos
os bravos
abrirão teu cérebro como os gomos de uma laranja
É o humano que buscamos, dirão,
Engolindo a seco o enigma
sacando a lâmina da lama
Permitindo-nos um café ainda,
heróis.

a aliança


A febre dos trabalhos exige-me cigarros
A febre dos trabalhos faz-me esquecer dos pequenos objetos úteis e descartáveis
Pois tenho o estômago frágil e coisas demais na cabeça
Sentada nesta mesa de madeira no meio do mundo
Nua, finalmente
O cigarro pende da boca
Como um plano assombroso das teclas de um piano, como uma bomba
prestes a florescer do contentamento
- Com licença, consigo ainda dizer a uma velhíssima senhora que apaga a bituca no tampo da mesa ao lado,
a senhora teria um fogo que me empreste?
Dito assim, um fogo, indefinido, consumindo o artigo das formas prematuras,
Dito que me empreste, pois a dádiva alimenta-se de fiéis imprecisões,
Pedido absurdo.
A velha senhora não entende.
Em algum lugar entre as rugas
uma contração, uma avalanche de fantasmas -
Ela parece esforçar-se por escutar, os olhos cravados no além
Revelando sua antiguidade frente ao meu pedido demasiadamente
compreensível, e a ternura que poderia haver sentido
desvia-se nos nódulos nervosos, apresenta-se
numa torção difícil como uma noz.
Fogo? Fogo? FOGO?
Que flama é que persiste neste corpo
contra todas as circunstâncias,
dobrando-se frente às impiedosas circunstâncias,
Buscando mais e mais superfície
porque a memória possa temperar-se
em suores noturnos,
circunscrevendo
misteriosamente
as circunstâncias
A senhora levanta e se arrasta
a passo lento,
como quem se aproxima de uma prece,
seu corpo inteiro como uma única e trêmula cavidade
Fogo, por todos os diabos! Macacos de todas as eras me mordam! É preciso fogo e tabaco para ter ainda um minuto, por que saiam as
palavras deliciosamente revoltas do risco de permanecer imóvel!
Eu vi a senhora fumando,
e não te repreendo,
bem sei da largura incrível das horas, da dureza do disparo,
sei que há dores maiores que um corpo,
uma vida, eu digo,
Pois bem, recuperei a calma a duras penas
eu que nunca tive escolha,
que me demoro na tua demora,
Na escritura do teu rosto, esta dádiva sutil, invisível a olhos apressados,
Dádiva que pouco a pouco se ilumina
Arma dos destinos extraviados
Colossal senhora,
Chaminé de um solo tapado
pela sucessão dos atropelos
pelo misterioso evidente catastrófico indiferente
grandioso espetáculo dos adjetivos, eu te vejo!
Os teus braços moles
com que perfaz-se a despedida
na oscilação das peles -
duração perfeita, eu te vejo!
Mais que nunca, é preciso fumar.
E então
abre a senhora
já rente ao meu rosto
as mãos, desentranhando as longas unhas da carne
AMARELA
MANCHADA
meticulosamente manchada,
como um livro de infinitas páginas em branco,
consumido antes de escrever-se
e me estende o aparelho ínfimo
composto de uma câmara de gás e uma pedra e uma roda
por que sairá o fogo entre dois dedos lavrados por lágrimas,
dizendo na rouquidão perfeita de um elefante exausto:


Eis o que me pedes, mulher, eis o que terás -
e ao que pego no isqueiro e volto meu rosto
a velha senhora sumiu.

Henri Michaux


Os equilíbrios singulares


     Enquanto estava fora das mantas repousantes da saúde, vi como os homens vagavam e os mundos que vagavam nos homens.
     Era de se perguntar o que eram eles na verdade. Mas alguma coisa me dizia: “São eles. São homens, perfeitamente. Senão estariam tão constrangidos... e ao mesmo tempo tão seguros?”.
     Eu vi uma escada equilibrando um riacho. Assombroso! E portanto eu sabia que era um homem, e até mesmo sem duvidar uma mulher.
     Eu vi uma varanda que equilibrava um moinho, um moinho na ponta de uma vara. Ah! Ah! Então eu vi uma gruta que estava balanceada com arremessos de pedra. Como é que arremessos de pedra podem equilibrar uma gruta? Portanto, aí estava.
     Eu vi rostos: dois ou três estiletes seguravam costuras e caretas. Esses estiletes metiam-se nos anos, e mantinham e guiavam o homem.
     Aqui uma cruz equilibrava um poço. Lá uma ala.
     Uma cinza ligeira tinha tranquilamente em equilíbrio a uma casa inteira.
     Um castelo vacila. Um papel emparelha-se com ele e o impede de cair, ou será uma pluma, uma caixa, ou os seios bem formados de um peito branco.
     Numa cachoeira detém-se um homem jovem.<<Oh simetria! Simetria! dizia-me-eu, eis-te verdadeiramente aplicada neste par!>> e eu errava interessado por este mundo singular, me esquecendo das tenazes de meu mal tenaz.



Les équilibres singuiliers


     Pendant que j'étais hors des langes reposants de la santé, je vis comme les hommes erraient et les mondes qui erraient dans les hommes.
     C'était à se demander ce qu'ils étaient en vérité. Mais quelque chose me disait: "C'en est. Ce sont bien des hommes. Sinon seraient-ils si embarrassés... et en même temps si sûrs?"
     Je vis un escalier équilibrant un ruisseau. Étonnant! Et pourtant je savais que c'était un homme, et même à n'en pas douter une femme.
     Je vis un balcon qui équilibrait un moulin, un moulin au bout d'une gaule. Ah! Ah! Puis je vis une grotte qui était en balance avec des jets de pierre. Comment des jets de pierre peuvent-ils faire équilibre à une grotte? Pourtant cela était.
     Je vis des visages: coutures et grimaces portées par deux ou trois stylets. Ces stylets s'enfoçaient dans les anées et maintenaient et guidaient l'homme.
     Ici une croix équilibrait un puits. Là une aile.
     Une cendre légère tenait tranquillement en équilibre une maison entière.
     Un château vacille. Un papier lui fait pendant et l'empêche de tomber, ou c'est une plume, une boîte, ou les seins bien formés d'une poitrine blanche.
     A une cascade se retient un jeune homme. <<Oh symétrie! Symétrie! me disais-je, te voici en ce couple vraiment appliquée!>> et j'errais intéressé dans ce monde singulier, oubliant les tennailles de mon mal tenace.

O sonho cruza
o batente da casa
branca feita de reboco
batida pela brisa do oceano
detém-se nas pedras onde leões
marinhos deglutem suas venturas
profundas -
De corpos enormes, ínfimos, moles,
rígidos demais, não páram de emergir
e arrastar-se para as pedras
onde antes não havia nada -
Os olhos cheios
do sonho
desse líquido abissal -
Em breve nadarão para outras ilhas,
restarão os cadáveres
das suas crianças excessivas
entre pedras
chatas -
Os corpos agudos
Os grunhidos agudos erguidos
na impressão de um lamento
infernal
que treme
na garganta
entre as pedras
na minha garganta
entre as pedras
desperto,

centauro




19 de abril. De vez em quando volto a este quarto. Cada vez é mais difícil encontrá-lo, como uma moeda que rola por baixo da multidão. Cada vez tenho que reaprender o caminho, para esquecê-lo em seguida. Cada vez que chego, é sem nenhuma esperança de chegar precisamente aqui. Hoje, por exemplo, foi buscando a melhor maneira de chamar-te que me dei com esta porta, entre um leão adormecido e um rapaz italiano que anotava os números da loteria. Penetro cautelosamente a atmosfera prenhe de operações. A caixa de gritos, o fogo encalacrado, constelações suspensas num globo de vidro. Não toco em nada - invisível, vejo melhor. As manchas de sangue e mijo no colchão. Tudo quer dizer Aquilo que aí habita em minha ausência, o adivinho. No rastro do cheiro acre, na disposição das máquinas de condensação. Na insuficiência das máquinas. Na insuficiência. Nas sombras que não pertencem ao conjunto. Nas lâminas cravadas na parede, prendendo folhas das quais se lê Dá-me as tuas mãos, doce criança, doce criança que dorme dentro de mim. Uma begônia venenosa, uma mulher de mil pernas, um bicho enorme preparando-se no casulo... Num canto a carapaça aberta enfrenta-se com a minha própria nudez. Encaixe perfeito. Sou aquela que jamais traíste, risco da tua inflexão. Nunca permaneço mais que uma noite, nunca menos que uma eternidade. Fumando este cigarro na janela, roendo as frestas por que vazaremos, Levar-te nas ancas, minha criança, arrebatando as distâncias Indevassáveis que unem os corpos, 



"O velho Fontenelle talvez tivesse razão quando dizia: se eu tivesse em minha mão tôdas as idéias do mundo, evitaria abri-la. De minha parte, penso de modo diferente. Se tivesse em minha mão tôdas as idéias do mundo, talvez pedisse a vocês para cortá-la de vez; jamais a conservaria fechada por muito tempo. Sou um mau carcereiro de idéias. Por Deus, eu as soltaria. Que se corporifiquem nas formas mais duvidosas, atravessem tempestuosamente todos os países, como um louco cortejo de bacantes, aniquilem nossas mais inocentes flôres com suas varas de tirso, irrompam pelos nossos hospitais e expulsem da cama êsse velho mundo doente." 

Heinrich Heine.

a faca de ouro

I

Esta que já não vale nada
Que metida num baú com outras mil quinquilharias
de todo tipo
já não parece de ouro -
esta esquecida
que aguarda desperta,
a que toda a eternidade num golpe
a faca de ouro,
única capaz de fender o nada,
faca feita inútil
por homens facilmente saciados
faca crida cega
por aqueles que a herdaram,
incapazes de empunhá-la,
incapazes de imaginá-la,
a faca sabe lúcida
em seu fio
a partida dos gêmeos
a partida dos trens
nas lâminas dos trilhos
apinhados de saudades
insaciáveis -
a faca de ouro,
a última consequência,
capaz de penetrar
todas as marcas de nascença,
capaz de alucinar
qualquer rocha em que afunde,
de alcançar o veneno na carne
ela e só ela
guarda o gesto que nos une.


II

Esta noite
eu, a gatuna
a de corpo escuro
invisível a olhos incrédulos,
corpo moldado pelo vento nos flancos e
pelos dedos úmidos que abrem a madrugada
corpo crescido nas sendas nos túneis de emergência,
corpo feito de milhares de antiguidades
e por tanto de uma aguda novidade,
permanentemente excitado
pelos destinos,
corpo sem registro -
nem idade nem razão -

Eu penetro no calabouço
dos seus tesouros -
Eu roubarei a faca de ouro.

o gesto

lavar o rosto,
arrastar os móveis,
afundar nas pupilas da carne,
esbofetear os passantes,
acarinhar as penugens,
uma palavra exata
àqueles caídos
em leitos inexatos,
um encontro nas ruínas
embrenhado
facho de luz.